De ACA-M
2001/09/28
Por Manuel João Ramos (Público)
No passado dia de 22 de Setembro, não me passeei lírico e absorto pelos bairros históricos da cidade de Lisboa. Não fui respirar o ar purificado pela ausência de carros e pela titubiante chuva outonal. Não redescobri as belezas das severas fachadas pombalinas, não olhei para as sacadas antigas nem para os desenhos das calçadas gastas. Nem sequer considerei a hipótese de limpar o pó e olear a corrente da minha velha bicicleta, para desfrutar da ilusão fugaz de estar a viver numa bem ordenada cidade norte-europeia.
Em vez disso, coloquei um rolo na minha máquina fotográfica e fui passear a pé pela chamada primeira coroa circular de Lisboa, que delimitava o perímetro proibido ao trânsito de automóveis privados. Fui fotografar os milhares de automóveis que juncavam o espaço supostamente devolvido ao peão, naquele dia “simbólico”. Por todo o lado, nas imediações do dito perímetro interdito, vi e registei carros estacionados em cima dos passeios, frente a paragens de autocarros, em segunda fila, sobre relvados, canteiros, placas centrais e passadeiras. O Areeiro, o Campo Pequeno, a Praça de Espanha, Campolide e Alcântara pareciam afundados em carros mal estacionados, numa macabra antevisão do que poderão ser as áreas circundantes dos estádios no próximo Euro 2004. A Av. Calouste Gulbenkian, a Av. de Berna e a Av. João XXI estavam repletas de filas paradas de automóveis buzinando constantemente. Em vários momentos, quando a velocidade média do tráfego se aproximava do zero absoluto, os condutores gritavam, esbracejavam e arfavam, amaldiçoando o “Dia Europeu Sem Carros na Cidade”, do interior do seu cubículo de quatro rodas.
Ao fim da tarde, depois de inspeccionar o grau de destruição do sistema de rega da Praça de Espanha, que cedeu ao peso de várias dezenas de automóveis e carrinhas estacionadas ao longo do relvado, cheguei à esquina da Av. de Berna com o Largo José Azeredo Perdigão (antigo Largo do Rego). Foi então que assisti a um curioso diálogo entre duas pessoas profundamente irritadas com o trânsito invulgarmente denso para um sábado que fora anunciado como “Sem Carros na Cidade”. Um deles, um condutor que morava nas Avenidas Novas, não conseguia encontrar lugar para estacionar legalmente nas imediações de sua casa. O outro, um agente da Divisão de Trânsito da P.S.P. que durante todo aquele dia, como no anterior, tinha sido a uma barragem imparável de queixas, comentários insultuosos, frustrações e tensões da parte de centenas de automobilistas prisioneiros em filas intermináveis de trânsito.
Ansioso, o automobilista pedia ao agente da P.S.P. para poder entrar no perímetro proibido para poder estacionar o seu carro. Dizia que vivia apenas a quinhentos metros da Av. de Berna e que estava já há mais de uma hora a procurar estacionar o seu carro. Pedia um pouco de tolerância (um “jeitinho”) porque o evento europeu iria terminar dali a meia hora. O polícia, seguindo zelosamente as instruções do seu comando, respondia que não podia o autorizar a entrar no perímetro proibido. O condutor insistia, persistente, enquanto, atrás, se faziam ouvir as buzinas estridentes de quem desesperava para poder avançar o seu carro mais 70 centímetros ao longo da avenida. Passado um momento, já eu me afastava do local, pude ouvir o polícia dizer:
“Claro, se o senhor entrar pelo parque de estacionamento e depois sair, aí, já não é nada comigo!”
O agente da polícia evocava o que se tinha estado a passar, minuto a minuto, naqueles dois dias, a vinte metros da barreira que estava sob sua responsabilidade. O desvio para a entrada no parque de estacionamento Berna, que não era policiado, foi usado por várias centenas de automobilistas para entrar no centro da cidade. Como que cansado de tentar estancar as águas de um rio em fúria, o polícia tinha, simplesmente, desistido de argumentar com uma massa de gente descontente, e de impedir a infracção generalizada. Para sobreviver à constante pressão do confronto com os condutores, tinha optado – como, provavelmente a maioria dos seus colegas - por uma interpretação minimalista das instruções do seu comando.
Ao contrário do ano passado, a cidade não esteve vazia de automóveis. Vários milhares de cidadãos terão confiado que o sistema de gestão do trânsito na região de Lisboa não entraria em colapso devido à interdição de uso de automóveis no centro da cidade, no dia 22 de Setembro. Mas tudo pareceu conjugar-se para transformar a iniciativa, de colectiva bandeira de urbanidade folclórica, em pastiche sem graça. Podemos invocar o impacto negativo causado pela chuva precoce e pelo encerramento do túnel do Campo Pequeno, mas apenas porque ajudaram a sublinhar quão longe estamos das utopias planeadas das cidades de abundância. Os quatro mil lugares de estacionamento disponíveis nos parques dissuasores não absorvem, obviamente, os 400 mil carros que fazem por entrar diariamente em Lisboa. A manutenção dos custos reduzidos nas portagens, por receio de buzinões egocentrados, contribui para a falência do transporte ferroviário suburbano. A expansão de vias rápidas de acesso à cidade, sem reserva de faixas exclusivas para transportes públicos e para automóveis transportando mais de três passageiros, impede a consideração de alternativas economicamente mais saudáveis. A insuficiência do financiamento às empresas de transporte público, e a incapacidade da administração para investir em modelos alternativos de mobilidade e acessibilidade, assim como a não criação de atractivos viáveis para a reocupação residencial do centro da cidade, exponenciam o uso do automóvel privado. A ausência de instruções claras e coerentes da parte dos comandos policiais, face a uma sociedade motorizada que interiorizou sentimentos de impunidade perante a infracção, resulta na desmotivação generalizada dos agentes fiscalizadores do trânsito. E o desrespeito que muitos milhares de condutores revelam pelo próximo e por si próprios, faz o resto. O resultado nada simbólico: uma Lisboa com carros no passeio no dia “sem carros na cidade”.