De ACA-M
Manuel João Ramos, Diário de Notícias, 2002/08/14
Miguel Sousa Tavares defendeu nos écrans da TVI (6/08/02) o direito dos bons condutores a guiar em excesso de velocidade, e revelou já ter-se sentido ameaçado por cidadãos inocentes que conduziam dentro dos limites legais quando “ia a abrir” na Avenida de Ceuta, em Lisboa.
Esta não foi a primeira vez que o opinador explanou publicamente a sua concepção de como se deve reger o meio rodoviário. Já no ano passado, numa crónica do Público (20/04/01), tinha insinuado que a prova da boa condução não é o respeito pela lei e pelo civismo mas a capacidade de acelerar até aos 160 km/h sem colidir com os “maus condutores” que conduzem dentro dos limites da lei.
O filho de Francisco Sousa Tavares não é exemplo único na feira do marialvismo nacional-rodoviário. Há quatro anos, Rui Rio, na altura deputado da AR, relatava ao Expresso (6/11/98) como adormecia ao volante a menos de 120 km/h, não respeitava sinais contínuos e guiava BMW’s a mais de 200 km/h. Por outro lado, Paulo Portas nunca achou necessário retratar-se publicamente por espatifar um jaguar quando conduzia em excesso de velocidade na Avenida Fontes Pereira de Melo. Jorge Coelho nunca considerou ter de anunciar a que velocidade ia quando se despistou no Eixo Norte-Sul. E diz-se que Jorge Sampaio permite que o motorista presidencial percorra o país a 180 km/h.
Sabemos que muitos portugueses imaginam confusamente que o poder é um misterioso fluido que se exala do volante de um bólide e, por artes mágicas, impregna o espírito do condutor macho, quando este ultrapassa o limite legal de velocidade. E, por isso, disparam sobre o próximo em manifestações contínuas de autismo social, bastas vezes temperados pelos vapores etílicos e/ou pelas micro-ondas dos telemóveis.
Para que as estradas portuguesas deixem de ser um meio hostil, de violência e agressão pseudo-viril, o combate policial à infracção e à cobardia agressora de quem se acha um ás do volante tem de se tornar eficaz e realmente dissuasor. Mas, simultaneamente, urge que os “aceleras” que apregoam as virtudes do marialvismo rodoviário sejam socialmente sancionados.
O facto de Miguel Sousa Tavares sentir necessidade de se exprimir como se exprimiu em público é já um sinal de esperança: ele pressente que a espécie dos “bons condutores” está a ser ameaçada de extinção por quem reclama o seu direito à acalmia do trânsito.