7 de Setembro de 2010

Falta de pontualidade

De ACA-M

Manuel João Ramos, O Diabo, 2002/08/08


Os números que se referem às vítimas mortais das estradas até podem mentir: os dados da DGV não coincidem com os da GNR e da PSP, e os números do Ministério da Saúde são sempre os mais baixos de todos. O EuroStat da Comissão Europeia, por norma e à cautela, impõe uma taxa rectificadora às estatísticas portuguesas: mais 14% sobre o total de mortos, porque Portugal contabiliza os mortos no local e até 48 horas depois. É que de fora ficam todos os feridos graves que acabam por falecer nas semanas seguintes ao desastre.

Mas aquilo em que todos os números concordam é que a sinistralidade grave aumentou desde que o Parlamento anunciou a suspenção (em Novembro) e depois revogou (em Julho) a lei da taxa de alcoolemia.

O mês de Julho foi aliás um dos mais mortíferos nas estradas portuguesas: mortos a mais, excesso de velocidade a mais, alcóol a mais. Por isso, a pergunta impõe-se: há ou não relação entre os silêncios e as decisões do poder político e a mortandade rodoviária? O PSD e o CDS, que em Novembro do ano passado tinham exigido uma comissão científica para estudar o impacto da lei, vetaram-na agora em Julho. A mensagem pública que o Parlamento transmitiu foi de tolerância face à infracção nas estradas. O governo silenciou-se. E os condutores responderam matando-se mais, criando mais um triste recorde: os últimos seis meses são os piores desde há um decénio. Recorde a juntar a vários outros: Portugal é o campeão europeu dos atropelamentos em passadeiras, o campeão europeu do crime rodoviário, e o único país do mundo que aumentou a taxa de alcoolemia. E, em Julho, Durão Barroso manteve o silêncio incomodado de quem fez promessas demagógicas em 2001, quando viajava pelo IP4 com as câmaras de televisão às costas.

Entretanto, as autoridades portuguesas começaram a receber protestos internacionais, vindos de vários sectores: da Association for Safe International Travel, da Royal Society for the Prevention of Accidents, da Eurocare, da Federation Européene de Victimes de la Route, e até do Instituto Brasileiro de Ciências do Trânsito. Todos condenavam a decisão do Parlamento e a inacção do governo. Assim, tarde, tarde de mais, o Ministro da Administração Interna veio esta semana desenterrar timidamente medidas previstas pelo antigo governo socialista e anunciou-as numa conferência de imprensa que falhou o directo para a televisão por falta de pontualidade.

Claro que o anúncio do aumento da eficácia na cobrança de multas é urgente, claro que o anúncio do aumento da fiscalização é importante. Mas, numa época em que as despesas públicas são para conter, por ordem da Ministra das Finanças, não ficou claro para os portugueses se este anúncio é mais do que simples fogo de vista: como aumentar o número de efectivos e o número de patrulhas policiais se não há dinheiro para lhes pagar? Como dotar os carros-patrulha com terminais multibanco sem reforço da verba do ministério? Estaremos cá para ver, se não morrermos entretanto numa esquina próxima, atropelados, abalroados ou colididos, às mãos de um qualquer cobarde que julga que a potência se encontra no volante que tem entre as pernas.

E pode ser que estejamos cá para multar o governo por excesso de lentidão em matéria de segurança rodoviária.