De ACA-M
Manuel João Ramos (Sol, 2007/11/12)
Uma sobrevivente do atropelamento terrível do Terreiro do Paço que, tendo conseguido sair fisicamente incólume do acidente, encontra-se ainda em estado de choque. Durante uma semana, tremeu, não comeu e não disse uma única palavra. É a irmã e tia de duas das vítimas. Viu os pedaços do corpo da sobrinha espalhados pelo asfalto, e viu a irmã – que continua em coma no hospital – transformada numa massa disforme e desengonçada a esvair-se em sangue.
Nem a sua família, nem a família da outra vítima mortal, que deixa dez filhos, percebem porque razão só a condutora homicida teve direito a apoio psiquiátrico, nem porque ninguém accionou o seguro para poderem pagar os funerais. Nenhuma autoridade oficial lhes deu qualquer justificação ou apoio.
Souberam pela televisão que as vítimas da colisão e despiste da A23 tiveram direito a apoio psicológico imediato e que as seguradoras se prontificaram a avançar apoio financeiro aos familiares e sobreviventes. Viram as entidades oficiais consternar-se pelo terrível acidente do Nó do Fratel. Ouviram o Primeiro Ministro pronunciar-se pela primeira vez em público sobre tragédias rodoviárias, e o Parlamento fazer um minuto de silêncio pelas vítimas.
E não sabem que fazer. Não sabem como devolver à vida uma vítima do atropelamento que não foi fisicamente atropelada mas sofre profunda e silenciosamente de distúrbios pós-traumáticos de stress (DPTS).
Os familiares de quatro das dezasseis vítimas mortais da A23, e os do menino morto em Tires, não sabem que essas mortes não serão contabilizadas como resultantes de acidente de viação. Não contam nas estatísticas oficiais porque chegaram ao hospital ainda vivos. Isto porque o governo português é um dos únicos da Europa que não considera que aqueles que morrem nos trinta dias seguintes a um trauma rodoviário são vítimas da estrada. Forma conveniente de reduzir os números de mortos nos relatórios oficiais.
Quando a ACA-M começou a difundir a ideia de que há uma guerra civil nas estradas Portuguesas pretendia, antes de mais, chamar a atenção para os altos níveis de agressividade do meio rodoviário nacional e para os elevados números de vítimas de trauma – como se de uma guerra se tratasse.
Mas há uma outra razão – menos óbvia talvez – porque continuamos a insistir no paralelo entre violência rodoviária e conflitos militares violentos: é hoje comummente aceite pelos médicos de saúde pública que os desastres rodoviários causam traumas equivalentes aos traumas de guerra e produzem nos sobreviventes o mesmo tipo de síndrome psíquico que as situações de batalha – o DPTS.
Este mês, o governo português aceitou finalmente reconhecer que a guerra colonial causou em muitos soldados portugueses traumas psíquicos indeléveis, e incluiu o DPTS na Tabela Nacional de Incapacidades.
Para quando, então, o reconhecimento, pelo estado e sociedade portugueses, dos efeitos perenes e devastadores do trauma rodoviário naqueles que sobrevivem a colisões, despistes e atropelamentos graves?