De ACA-M
Traduzido com autorização de Ray Volgensen.
Os dez mandamentos do condutor português
Ultrapassarás com o risco contínuo. Se houver uma curva, ainda é mais excitante.
Estacionarás o carro em dupla fila e farás os outros condutores esperar por ti 30 minutos ou até mais, até ao teu regresso. Se te acontecer a mesma coisa, buzinarás furiosamente.
Aumentarás a velocidade do teu carro quando te aproximares de um daqueles semáforos que ficam vermelhos quando se excede o limite de velocidade de 50km/h, e obrigarás os carros que vêem atrás de ti a parar.
Quando vires uma colisão por excesso de velocidade, não abrandarás e desviar-te-ás para a esquerda para evitar também um embate, mas colidirás com o carro que vem em sentido contrário.
Avisarás com sinais de luzes os outros condutores da proximidade da polícia, mesmo que um deles tenha roubado um banco ou possa ser um perigoso terrorista da Al-Qaeda.
Estacionarás no passeio sempre que necessário, mesmo que obrigues os peões a andar no meio da estrada. Se um se queixar, responderás indignado: “Também é má vontade! Então não vê que tem imenso espaço para passar?”
Usarás os faróis de nevoeiro durante o dia e à noite, mesmo que não haja qualquer sinal de nevoeiro ou da chegada de D. Sebastião. Encadearás o condutor que vem em sentido contrário só porque isso é divertido.
Lembrar-te-ás sempre que 130km/h na auto-estrada se refere à velocidade mínima.
Conduzirás a 160km/h na faixa mais rápida da auto-estrada Porto-Lisboa, fazendo assim 300 km em menos de duas horas. Sim, tens razão. O teu carro custou muito dinheiro e as portagens não são baratas e da gasolina nem se fala.
Farás sinais de luzes e buzinarás se alguém ousar ultrapassar-te e seguir à tua frente no limite máximo de velocidade permitida. Se o outro condutor persistir, colar-te-ás à traseira do carro transgressor, até que este desista e te deixe passar a ti, o verdadeiro dono da estrada.
Perfil do Condutor Português
Carro – deve ser vermelho ou preto para parecer um carro de corrida. Os vidros esfumados são para reforçar o anonimato que te garante a impunidade
Vidro esquerdo – serve para olhar de maneira desdenhosa para os ocupantes do carro que estás a ultrapassar pela direita
Vidro traseiro – serve para os condutores inimigos observarem os teus gestos obscenos depois de terem sido ultrapassados
Luzes de nevoeiro – devem estar sempre ligadas para cegarem os outros condutores
Rádio – deve ter um leitor de CDs e alto-falantes com mais de 250 watts para emitir ruídos incómodos tais como o som de sirenes e de buzinas
Condutor – são essenciais óculos escuros para que os outros não saibam para onde estás a olhar, gel no cabelo e um casaco de cabedal para dar aquele ar selvagem e bravio.
Tubo de escape – deve ter uma extensão que ultrapasse a mala do carro, não só para fazer muito barulho, mas também para emitir gases para quem se atreva a seguir-te de muito perto.
Regras da estrada para o condutor português
Semáforo vermelho – para parar só em caso de absoluta necessidade (tua, não dos outros)
Semáforo amarelo – prego a fundo
Semáforo verde – não deveriam ser todos desta cor?
Passadeira – um lugar onde alguns peões têm a lata de atravessar; é por isso que lhes deves mostrar quem é que manda. Não pares.
Sinal de Stop – Quem foram os idiotas que inventaram esta aberração?
Bombas – carros que são mais rápidos que os outros. Se fizerem sinais de luzes para ultrapassarem, deves baixar a tua cabeça como se estivesse a mexer no rádio, só para não dar a perceber que o teu carro tem menos potência, e dar a impressão que só não anda mais depressa porque está ocupado.
Descrição de acidentes nos Relatórios das Companhias de Seguros
“O peão não sabia para onde queria ir, por isso atropelei-o...”
“Só vi a velhinha quando ela se atirou para cima do capô do meu carro.”
“Tinha a certeza que o velhote não conseguiria atravessar a rua toda de uma só vez, por isso não parei. Atropelou-me o carro.”
“Pensei que tinha a janela aberta, mas descobri que estava fechada quando quis pôr a cabeça de fora.”
“Embati contra um carro parado, que vinha na direcção oposta.”
“Saí do parque de estacionamento, olhei para a cara da minha sogra e desci a rua caindo numa ravina.”
“O tipo atravessou a rua em zig-zag, Eu tentei desviar antes de o atropelar.”
“Já conduzo há 40 anos. Só tive o acidente porque adormeci ao volante por acaso.”
“O meu carro estava estacionado correctamente, quando bateu na traseiras de outro carro.”
A Bíblia do Bom Condutor
Na estrada, não deixes de ultrapassar nas curvas e nas lombas. Nem imaginas como isso é excitante.
Conduz sempre em alta velocidade, mesmo quando a intensidade de tráfego não o permite. Isto demonstra que tens personalidade e poder. Conduz sempre no meio da via. Uma vez que tens o direito de usar metade da via, escolhe a metade que gostares mais.
Faz corridas com os comboios e tenta atravessar os cruzamentos ferroviários antes dos comboios lá chegarem. Isto é excitante para os condutores das locomotivas, dado que quebra a monotonia do seu trabalho.
Quando vieres de uma estrada secundária, aumenta a velocidade ao entrar na via principal. Tens o mesmo direito que os outros de conduzir numa via principal.
Se o teu carro derrapar, trava bruscamente. Assim, farás piões artísticos com o teu carro. Muda de direcção sem olhar e sem dar sinal. Isto mostrará aos idiotas que não és para brincadeiras.
Quando encontrares uma fila de carros à tua frente, mesmo numa via estreita, não traves. Se te despachares, ainda podes ver a fotografia do teu desastre nos jornais.
Mostra aos teus companheiros de viagem como és corajoso, fazendo manobras perigosas e andando a altas velocidades. Se eles não gostarem, pior para eles; terás sempre a possibilidade de andar sozinho, sem precisar de aturar passageiros maçadores.
De noite, se ficares encadeado pelos faróis de um carro vindo na direcção contrária, faz o mesmo. A vantagem deste tipo de acidente é que, como não vês o outro carro, nem tens tempo de ter medo dele.