Por Manuel João Ramos (25/10/03)
Escrevi num semanário, há quatro anos, um texto sobre o que entendia então ser a “guerra civil nas estradas portuguesas”, do qual cito um extracto:
«O que é uma “guerra civil nas estradas”? É um estado de negação absoluta do sistema de regulações sociais? Não, visivelmente. As regras de conduta e o código da estrada, sendo regularmente pervertidas por um grande número de condutores, não estão ausentes das rodovias. Os automóveis e camiões seguem geralmente pela direita, e os condutores costumam travar quando vêem uma situação de perigo iminente à sua frente. (Quase) nenhum condutor colide voluntariamente contra os veículos circundantes para os destruir e aos seus ocupantes. Não há, nas estradas, o hábito dos bombardeamentos e massacres, dos atentados, snipers e acções de guerrilha. Um condutor pode ser “assassino” por negligência, raramente o é por dolo.»
Face ao elevado número de colisões frontais que têm ocorrido nos últimos meses, causadas por automobilistas circulando em contramão em auto-estradas, lembrei-me de reler este texto e de me perguntar se o ponto de vista continuava a fazer sentido. Creio que sim, que ele continua globalmente válido. O sistema do trânsito continua a ser sistema, as regras continuam – no geral – a ser cumpridas, (quase) ninguém mata, ou se mata, voluntariamente. Mas dito isto, temos de nos perguntar se o que se está a passar nas estradas portuguesas não é um pouco o que se passa no Iraque: podemos dizer, se formos optimistas e acólitos da Administração Bush, que o país está a retomar a normalidade, que enormes progressos estão a ser feitos e que a comunicação social, ao focar a atenção nos atentados diários que ali acontecem, está a desviar a atenção do que é realmente importante – a normalização do Iraque. Mas também podemos considerar que, seja por efeito da comunicação social ou não, as emboscadas e os atentados bombistas contribuem para criar um clima de medo e ansiedade que afecta cada vez mais os cidadãos iraquianos e os militares norte-americanos, e tem causado uma evidente perda de popularidade do presidente W. G. Bush nos próprios EUA.
Do mesmo modo, podemos dizer ingenuamente que o número de mortos nas estradas portuguesas tem vindo a diminuir, que há mais fiscalização, e que a luta da Administração Interna pela “paz nas estradas” tem dado os seus frutos. Mas, não sabendo nós se a circulação em contramão é um fenómeno recente ou se é a comunicação social que tem dado maior relevo às notícias sobre este tipo de infracção, a verdade é que o sentimento de insegurança aumenta na proporção directa da publicitação do que podemos considerar ser uma sucessão de actos terroristas praticados por cidadãos que circulando, voluntária ou involuntariamente, em contramão usam os seus automóveis como armas de destruição maciça, lançando-os barbaramente contra os seus semelhantes.
Do pouco que sabemos – e sabemos pouco porque não existem especialistas
devidamente credenciados em acidentologia no nosso país –, podemos considerar as
falhas de sinalização, o consumo de álcool, o cansaço, a idade e as tendências
suicidárias, como causas prováveis destas ocorrências – é a elas que as
autoridades e a comunicação social lançam habitualmente mão. Mas elas não
explicam, no fundo, porque é que cada vez mais pessoas utilizam o anonimato
oferecido pelo automóvel para levar a cabo actos de profundo desprezo pela vida
dos seus semelhantes (ou porque é que a comunicação social os noticia cada vez
mais). Se não podemos dizer muito mais, porque as autoridades não nos informam
conveniente e detalhadamente sobre as condições e as causas destes actos, pelo
menos uma coisa parece inegável: as estradas portuguesas continuam a ser meios
socialmente hostis, onde a falta de segurança e de respeito pela vida humana são
obstáculos insuplantáveis a uma desejada paz rodoviária.