Face às notícias surgidas na imprensa de ontem sobre o comportamento rodoviário anti-social de um pároco de Santa Comba Dão, a direcção da ACA-M decidiu dirigir-se ao Papa Bento XVI, à Conferencia Episcopal portuguesa e ao Arcebispo de Viseu, pedindo à hierarquia eclesiástica que ajude aquele sacerdote a exorcizar o seu desmedido prazer pela velocidade que a potência do seu Ford Fiesta 200 ST lhe permite atingir.
A Sua Santidade o Papa Bento XVI
Sumo Pontífice da Igreja Católica
A Sua Eminência Reverendíssima Dom Jorge da Costa Ortiga, Arcebispo
de Braga, Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa
A Sua Eminência Reverendíssima Dom Alfio Rapisarda
Núncio Apostólico da Cúria Romana em Portugal
A Sua Excelência Reverendíssima Dom Ilídio Pinto Leandro
Bispo de Viseu
A Sua Reverência Padre António Rodrigues
Pároco do Couto do Mosteiro
Dirigimo-nos a V. Santidade para apresentar o seguinte pleito:
O comportamento rodoviário anti-social do sr. Padre António Rodrigues,
pároco do Couto do Mosteiro, em Santa Comba Dão, foi noticiado
ontem, dia 21/03/07, em alguns jornais diários portugueses (Público,
p. 14, “Um padre movido a fé e adrenalina”, 24 Horas, p.
21, “O padre tem uma máquina... dos diabos”).
O sr. Padre António Rodrigues orgulha-se de ser proprietário
de uma “autêntica bomba”, um Ford Fiesta 200 ST de 150 cavalos
de potência, adquirido “no estrangeiro”, e de “andar
no picanço na A25” (competir com outros utentes daquela que já foi
conhecida internacionalmente como a “estrada da morte”, tantas
foram as vítimas mortais naquele trajecto).
O sr. Padre António Rodrigues, que afirma gostar da “adrenalina
provocada pela velocidade” e “de sentir a potência debaixo
do pé”, vangloria-se ainda de o seu automóvel chegar facilmente
aos 210km/h, acrescentando que “Graças a Deus” nunca foi
multado, e que, antes de padre é um ser humano.
Finalmente, admite que utiliza o seu carro para levar os jovens [das aldeias]
a “dar uma volta”, e para “chegar a tempo às 3 igrejas
da paróquia” (que distam entre si não mais que 13 km).
Foi com horror que a Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados
tomou conhecimento destas notícias. E é com natural incómodo
que nos dirigimos a V. Santidade para notar que:
1) Um padre é um cidadão. Nesse sentido, não pode colocar
os seus deveres de padre (chegar a horas às diferentes igrejas onde
oficia, transportar jovens entre aldeias) à frente dos de cidadão.
Numa palavra, não se pode colocar acima da lei da república portuguesa.
2) Um padre católico é um homem, mas antes de ser homem é padre.
Caso pusesse o ser “homem normal” antes do sacerdócio, não
haveria motivo para cumprir o princípio do Celibato. Ora um padre tem
de dar o exemplo, porque nele o Sentido Ético é o mais importante.
3) Um padre é um predicador – não por acaso é tantas
vezes também professor de Religião e Moral. Um guia espiritual
que molda o comportamento e valores de outrém.
4) Um padre é, sine qua non, um modelo de virtudes – não
pode ser um repositório de pecados.
O arrepiante comportamento descrito nas notícias testemunha um deslumbramento
ingénuo pela velocidade, pela ilegalidade, e pela irresponsabilidade
social, que é seguramente condenável pela hierarquia da Igreja
católica.
Mais ainda, o sr. Padre António Rodrigues parece crer, na sua cega vaidade,
que a providência divina o favorece, permitindo-lhe fugir às sanções
judiciárias humanas. Como ele diz: “Graças a Deus, não
[sei] o que é uma multa”.
Acreditamos que o sr. Padre António Rodrigues não esteja agindo
de má fé, e acreditamos ele conseguirá arrepiar caminho
e compreender quão longe se encontra hoje dos valores implícitos
no sacerdócio que assumiu. Vimos assim pedir a V. Santidade que ajude
este infeliz pároco a ponderar a gravidade dos seus actos e a imodéstia
das suas palavras, e a resistir às tentações conjugadas
da velocidade e da vanglória.
Despedimo-nos respeitosamente.
Direcção da ACA-M
Lisboa, 21/03/07