“Morreu na contramão atrapalhando o tráfego”
Chico Buarque de Holanda
Frente à Estação Fluvial do Terreiro do Paço, deu-se há três dias um atropelamento trágico e revoltante.
Três pessoas foram varridas por uma automobilista que fazia o que muitos outros fazem, todos os dias, em muitos locais de Lisboa: circulava em excesso de velocidade. Aparentemente, não acusava álcool no sangue, nem traço de drogas. O carro descontrolou-se, porque talvez ela se tenha distraído por um momento: acendia um cigarro, ligava o rádio, mudava o CD. Ou talvez viesse simplesmente a falar ao telemóvel. Como muitos outros automobilistas fazem. Todos os dias.
As três vítimas – Filipa, Neuza e Rufina – estavam no local errado, à hora errada? Sim, porque o local está todo errado, e porque a hora era a do fim do divertimento de uns e do princípio do trabalho para outros. O lusco-fusco...
Aqui – de forma brutal e chocante – confrontaram-se porventura dois Portugais: o dos automóveis e das vias rápidas, do conforto e dos sonhos das frentes ribeirinhas e dos divertimentos nocturnos; e o dos trabalhadores desprotegidos que, em silêncio humilde, calcorreiam as ruas, usam os transportes públicos, e procuram sobreviver numa cidade que os ignora, hostiliza, espezinha.
Há uma quarta vítima – aquela que é simultaneamente a autora material do homicídio. A automobilista. A tal que fazia aquilo que muitos – muitos, mesmo – fazem todos os dias. Circulava em excesso de velocidade. Vinha por uma via rápida, a Av. Infante Dom Henrique, que repentinamente se transforma – neste local – em lugar pitoresco, histórico, patrimonial, e, também, espaço de passagem da massa anónima que vem da outra margem do rio limpar os escritórios afluentes da Avenida da Liberdade.
A cidade dos carros burgueses e das vias rápidas está separada por um véu da Lisboa dos peões pobres e das ruas perigosas. Por vezes esse véu rompe-se, e os mundos encontram-se. E quando se encontram, é frequente que o resultado seja a violação dos direitos mais fundamentais dos cidadãos que andam a pé: o direito à segurança, o direito à dignidade, e o direito à vida
A tragédia que ali ocorreu foi, afinal, apenas mais um rompimento desse véu. Como o vereador do trânsito da Câmara de Lisboa lembrou já, o véu vai ser reparado, e tudo será como dantes – com mais uma lombas, mais uns segundos nos semáforos, mais um lancil e uns metros de calçada.
A tragédia maior que nos afecta a todos, e não apenas às vítimas directas, é termos olhado para o horror desta segregação, e para a nossa fragilidade fundamental de seres humanos quando não estamos protegidos por uma armadura automóvel.
Uma familiar das vítimas desfaleceu quando viu os corpos desmembrados; a autora material do crime ficou em estado de choque. Mas há um parceiro silencioso neste crime: é aquele que achou que este local fazia sentido, que não está errado, e que, por omissão, criou as condições do homicídio.
O parceiro silencioso deste crime licenciou espaços de diversão nocturnos e fez com que uma via rápida ribeirinha desembocasse nas obras mais vergonhosas do regime, e numa das passadeiras mais tenebrosas de Portugal. Deixou que o pavimento de alcatrão se deformasse, criou um falso refúgio de peões a meio de uma curva perigosa. E ficou à espera de que alguém caísse na armadilha.
Ficará de novo impune o parceiro silencioso deste crime?