Após dois anos de pesado silêncio, o Ministério da Administração Interna (MAI) lançou uma polémica campanha comunicacional de alerta rodoviário, protagonizada por um avião devidamente não-indentificado transportando 250 crianças para uma suposta morte. De acordo com a publicitária BBDO, responsável pela campanha, o público deverá interpretar o anúncio como alerta metafórico de combate ao excesso de velocidade na estrada.
Não nos chocam as campanhas de alerta rodoviário chocantes – e esta, segundo os padrões internacionais, é até bastante branda. Não nos choca que as crianças sejam protagonistas neste tipo de anúncio, se elas são um grupo de risco ou um público alvo. Nem nos choca particularmente que seja dispendido um milhão e meio de euros – uma verba algo reduzida, segundo as regras publicitárias europeias e americanas.
O que nos choca, surpreende, incomoda, perturba, é a falta de nexo, o oportunismo, o casuísmo das decisões a que esta área de intervenção governamental tem sido sujeita.
No caso da presente campanha, a mensagem é difusa, genérica e inconsequente.
É relativamente consensual, entre publicitários e técnicos de segurança rodoviária, que campanhas de alerta rodoviário contendo mensagens genéricas, não focadas sobre comportamentos de risco concretos, e não suportadas por acções estruturadas em vários sectores – da saúde, à fiscalização, à educação, à justiça – são um injustificado desperdício de verbas do erário público.
Isto mesmo nos parece bem provado no caso dos gastos do estado em campanhas desse tipo encomendadas durante anos à Prevenção Rodoviária Portuguesa (PRP): a suspensão das campanhas desde 2004, acompanhada pela descida acentuada da mortalidade e morbilidade nas estradas, são um sinal claro de que tanto faz que haja como não haja campanhas de alerta rodoviário de cariz genérico. De certa forma, parece até melhor que não haja, evitando-se assim o dispêndio do dinheiro dos cidadãos contribuintes.
A mensagem desta campanha não responsabiliza ninguém, não identifica nenhum comportamento de risco, não mostra porque razão o excesso de velocidade na estrada é causa da morte de 250 crianças. Trata-se de um anúncio preguiçoso e primário.
Anúncios deste género não têm como principal objectivo contribuir para a redução dos desastres na estrada. Como sustenta um dos gurus da segurança rodoviária britânica, Roger Davies, a razão de ser destes anúncios é tão-só mostrar que o governo está a fazer alguma coisa em prole da segurança rodoviária.
É então como peça de auto-propaganda
que a presente campanha “do
avião” deve ser entendida. Não esqueçamos que o
contexto em que ela surge é de grande descrédito para os responsáveis
do MAI. Tendo, na prática, deixado cair o Plano Nacional de Segurança
Rodoviária, do anterior governo, que – verdade seja dita – era
fundamentalmente um instrumento de financiamento da associação
PRP, o MAI lançou um atabalhoado concurso, em que a ausência de
critérios de avaliação permitiu que o júri presidido
por António Mega Ferreira decidisse com discricionariedade e parcialidade
despudoradas.
Ao tornar-se óbvio que o concurso seria anulado, o secretário de estado procurou pressionar sem grande elegância os vitivinicultores para que promovessem campanhas de segurança rodoviária em 2006. Um mês e pouco após o anúncio da anulação do dito concurso, e já com um mês de férias de verão decorridas, surge esta polémica campanha. Não é coincidência aliás que a verba desta campanha paga pelo estado e pela GALP corresponda exactamente à verba atribuída por estes dois financiadores do anulado concurso: 1 milhão e 500 mil euros.
Vale a pena perguntarmo-nos porque razão a BRISA, o terceiro financiador do concurso, optou por não participar nesta campanha. Atrever-me-ia a supor que a razão desta ausência se deve ao facto de as relações desta concessionária com o MAI terem esfriado devido à parcialidade daquela no concurso, que causou a referida anulação, e ao seu excessivo envolvimento na direcção da PRP – que teria sido a grande beneficiária do concurso.
E vale sobretudo a pena perguntarmo-nos porque razão o governo se permite não ter política visível ou adivinhável de segurança rodoviária, e consegue passar incólume por escandalosas anulações de concursos públicos e lançamentos de campanhas inconsequentes.
Nós gostaríamos de pensar que tem sido graças à actuação governamental e à participação da sociedade na criação de uma cultura de civilidade ao volante que os números da sinistralidade têm baixado de forma tão dramática. Infelizmente, a razão é muito mais prosaica. É a subida imparável do preço do petróleo, e consequentemente da gasolina, o principal responsável pelos recordes de redução do número de mortos e feridos nas estradas. Os portugueses não andam menos de carro – não podem, porque não há alternativas credíveis de transporte público. Assim, sensatamente, optam por andar mais devagar. E como o excesso de velocidade, a principal causa de desastres rodoviários, custa muito caro ao consumidor (um veículo circulando a 150 km/h gasta o dobro do que gasta a 100 km/h), a equação que o governo já parece ter percebido é que o número de mortos nas estradas diminui à medida que o custo da gasolina sobe. Por isso se dá ao luxo de nada fazer a não ser fingir que faz.